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Entrevista: Cadu Marques lança livro “A memória como tradição e as invenções de uma vida”

São Luís – “A gente sabe o quanto o racismo é sorrateiro, o quanto ele destrói e maltrata a gente. Então quando eu consigo realizar um feito como esse, vejo, de alguma forma, que estou dando uma rasteira no racismo, estou vencendo ele ao menos nesse momento, porque sabemos que a existência dele é vitalícia. E isso não pessimismo, é, infelizmente, a realidade”, palavras de Cadu Marques sobre a importância de lançar seu livro. Mas quem é este jovem?

Cadu Marques é do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Maranhão e realizou, no dia 24 de março, o lançamento do seu livro “A memória como tradição e as invenções de uma vida”, uma obra escrita com poesias, versos, rimas e uma narrativa afetiva em referência a avó, aos pais e amigos, e ainda a reexibição do minidocumentário “Ouro”, que conta sobre a produção de farinha d’água no quilombo de onde veio.

A família de Cadu vem de Centro de Violas, quilombo da cidade de Santa Rita, mas sua história começa no Recanto Verde, bairro que fica por trás da Vila Itamar, em São Luís, local no qual nasceu e foi criado: “Tive a melhor infância que uma criança poderia ter. Teve situações ruins, como a violência, mas minhas aventuras enquanto criança e adolescente, as grandes amizades que conquistei, toda essa experiência ajudou a construir o Cadu”.

Cadu Marquesn no lançamento de seu livro (Créditos: arquivo pessoal do autor)

Em 2018, entrou para a Universidade Federal do Maranhão, se tornando o primeiro da família a conquistar este feito, algo do qual diz não se orgulhar, mas que usa para reafirmar e mostrar a dificuldade de negros entrarem para uma instuição deste porte: “Na UFMA  comecei a compreender minha negritude e também me identificar como quilombola, afinal minha família é toda de um quilombo e eu fico sempre nessa ponte, por conta de estudos e trabalho, entre ele e São Luís”.

Hoje, Cadu é fotógrafo, escritor, ator e professor de teatro, além de empreender e construir produções audiovisual. O autor comentou sobre um momento tão sonhado do lançamento do livro: “A emoção tomou conta de mim. Estou digerindo ainda que tenho um livro sobre minhas vivências enquanto preto, quilombola e periférico publicado. Isso me faz acreditar mais ainda em mim, na minha história, na minha potência e do lugar que eu vim”. Cadu falou ainda sobre diversos momentos de sua trajetória e planos. Confira a entrevista.

Livro “A memória como tradição e as invenções de uma vida” (Créditos: arquivo pessoal do autor)

Maranhão Independente: Qual a sensação de um momento como este?

Cadu Marques – Ontem consegui sentir uma emoção muito particular, principalmente quando o meu curta documentário “Ouro” começou a ser exibido. Esse trabalho é muito importante na minha trajetória, dialoga diretamente com alguns escritos da obra, não tinha como não exibir. Alguns integrantes da minha família se fizerem presentes e foi muito importante, senti como se todos estivessem ali, afinal, eles habitam meus escritos. Agora eu tenho algo sobre mim espalhado pelos cantos dessa cidade e isso não tem preço, as pessoas poderão me ler, me sentir e se identificar comigo.

MaInd: De onde surgiu a ideia de escrever um livro?

CM – A ideia surgiu a partir da minha vontade em não só ser ouvido, mas lido. Eu sempre escrevi e pensei em um dia lançar o meu livro. Via como uma realidade distante, mas nao impossível. Minha vontade é causar esse impacto, e de mostrar que sim, um jovem preto e quilombola tem voz e pode sim ser ouvido, lido e sentido, levando o meu povo comigo nessas travessias. Então, a necessidade em lançar esse livro surge a partir desse emaranhado de ideias, desejos e memórias que me perpassam e que não queria guardar apenas para mim.

MaInd: Qual a importância de escrever este livro?

CM – É de extrema importância. Não é todos os dias que se vê um preto, quilombola e periférico lançando um livro que fala dessas vivências, desses lugares. Essas narrativas não interessam a muitas pessoas da sociedade. A gente sabe o quanto o racismo é sorrateiro, o quanto ele destrói e maltrata a gente. Então quando eu consigo realizar um feito como esse, de alguma forma, eu estou dando uma rasteira no racismo, eu estou vencendo ele ao menos nesse momento, porque sabemos que a existência dele é vitalícia e sem ser pessimista, mas realista. Então a relevância é grande. O meu projeto leva a potência do meu povo.

MaInd: Numa época com tantos meios digitais, redes sociais, por que você optou por algo mais tradicional como um livro físico?

CM –   Porque eu leio e gosto muito dos livros. Lembro da minha adolescência, que eu amava ir à biblioteca e pegar livros para ler. Então não é de hoje que eles estão no meu caminho. Gosto de ter os livros em mãos, palpáveis, até porque existe uma resistência aí, a de continuar evidenciando a importância dos livros impressos, mesmo tendo os formatos digitais É também um meio de driblar o que tentam impor e levar o que a gente quer e pensa.

MaInd: Já tem outras produções a caminho?

CM – Tenho muitos planos. Já estou produzindo um segundo livro, completamente focado na ideia de memória, que é simplesmente afetuoso e me faz cada vez mais me descobrir enquanto jovem preto e quilombola e como forma de reconhecer meus ancestrais.

MaInd: Para quem desejar adquirir seu livro, como fazer?

CM – Eles estão a venda, tanto a versão em PDF quanto a física em diversos sites, mas também tenho exemplares comigo. Quem tiver interessado pode entrar em contato comigo pelo Instagram. E esses ainda vão com uma dedicatória especial (risos).

Os livros de Cadu Marques estão a venda em formato físico e PDF, disponíveis em sites da Amazon, Americanas, Editora Lux, Shoptime e Submarino.

Texto por Kaio Lima

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