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Felipe Camarão: ‘se algo nos une a Sarney é uma proposta anti-Bolsonaro’

“Aqui no Maranhão, eu ressalto que vai ser uma eleição diferenciada. Vai ser a primeira vez na história que a eleição não será regionalizada (…): vai ser os candidatos que apoiam o Bolsonaro e os progressistas, que apoiam Lula”, prevê o pré-candidato do PT ao governo em 2022 e atual secretário de Educação, Felipe Camarão. Em entrevista exclusiva ao Maranhão Independente, na última sexta-feira (19), o recém-petista conversou sobre os rumos da política em 2022.

Para ele, mesmo o anti-sarneyismo histórico que elegeu o governador Flávio Dino (PSB) no estado deve ser deixado de lado em um cenário cujo principal a ser combatido é o bolsonarismo: “o que nos une é uma proposta anti-bolsonaro. Se a gente tem alguma afinidade hoje, política, é essa”, opina, referindo-se à visita que fez ao ex-presidente José Sarney (MDB) no mês passado.

O lançamento de Felipe Camarão acontece em meio a um fogo cruzado entre os pré-candidatos, em que políticos da base do governador – o senador Weverton Rocha (PDT), o vice-governador Carlos Brandão (PSDB) e o secretário Simplício Araújo (Solidariedade) – aguardam ansiosamente pelo comunicado de Flávio Dino sobre quem o psbista, de fato, irá apoiar.

O outro pilar fundamental que definirá a força de um candidato ao governo do Maranhão em 2022 é um possível vínculo ao Lula, que disputará a presidência e mantém alta popularidade no estado. O pré-lançamento de Camarão, por também pertencer ao PT, dificulta que o apoio do ex-presidente seja a Weverton Rocha, apesar da proximidade dos dois.

De acordo com Felipe Camarão, o PT maranhense, em sua maioria, defende candidatura própria. Entretanto, ainda há grandes nomes dentro da sigla que preferem outros pré-candidatos da base dinista. O ex-ministro Fernando Haddad (PT), em entrevista recente, chegou a afirmar que o PT nacional mantém diálogo com Weverton para um apoio ao governo, mas o pré-candidato petista assegura que, nestas eleições, é garantida a autonomia da direção estadual.

Maranhão Independente – Recentemente, o Haddad declarou em entrevista que o PT nacional tem interesse numa composição com Weverton aqui no Maranhão. Existe uma disputa interna no partido. Pra ti, como é ter agentes do próprio PT cogitando apoiar a pré-candidatura de alguém de outra sigla em detrimento da tua?

Felipe Camarão – Nós temos, hoje, 11 correntes dentro do PT do Maranhão. Eu, antes de me filiar, já tinha conversado com praticamente todas para que minha filiação fosse aceita – e foi, por unanimidade, inclusive com a corrente do deputado Zé Carlos, que inicialmente se manifestou contra. E, agora, na pré-candidatura, estou fazendo a mesma coisa. Já recebi apoio de sete destas 11 correntes, e as outras quatro já sei que não ficarão favoráveis, inicialmente. Então, fizemos um acordo: se, no congresso do partido, que é a instância adequada para tomar essa decisão, for deliberada pela minha candidatura própria, todas as correntes vão se unir em torno dela.

O diálogo, internamente, tem sido muito bom. Agora, os principais articuladores desse debate nacional são Flávio Dino (PSB) e Lula, que conversaram e se alinharam recentemente. Quando o Márcio Macêdo, vice nacional do partido, veio ao Maranhão, ele disse que não há hipótese do PT nacional fazer uma intervenção, como houve em 2010, por exemplo. Nós recebemos a garantia, e Lula reafirmou isso, que nesse caso há autonomia da direção estadual.

Eu respeito muito a opinião do ex-ministro Haddad, inclusive a gente tem um encontro, agora, marcado, para falar sobre política, educação, construção do plano de governo. Mas hoje, a gente, a maioria, tem uma unidade interna em relação ao futuro do PT no Maranhão, seja através de uma candidatura própria, seja se a maioria preferir apoiar uma outra candidatura.

Mas a direção nacional é importante por causa do Lula. O apoio dele é muito importante para uma candidatura em 2022 no Maranhão.

É fundamental. Nossa prioridade é a eleição do Lula. Depois. Eu me candidatei ao PT, inicialmente, para ser pré-candidato a deputado federal. Aí, a minha pré-candidatura vem com base nesse duplo objetivo: de dar um palanque puro para o Lula aqui no MA, para que ele não precise dividir o palanque com outro candidato de outro partido, e em segundo lugar para ajudar na legenda para eleger deputados federais e estaduais.

Já se sabe quando o Flávio Dino vai anunciar qual pré-candidatura ele vai apoiar? 

Ele nos convidou para uma reunião no dia 29, mas ainda não foi dito se ele vai escolher ou não. Pelo que se sabe, vai ser também um momento de escuta – hoje, temos 14 partidos na base do governo. Vários já se manifestaram por uma escolha agora, e outros pelo adiamento. Lá, vamos conversar sobre se vai haver adiamento ou não.

No mês passado, o senhor se reuniu com José Sarney. Flávio Dino, seu principal aliado, se elegeu com o discurso de combate à oligarquia Sarney. Queria saber: como anda a relação dessas duas partes hoje em dia e se ainda se encaixa esse discurso de oposição aos Sarney?

Nosso discurso continua sendo o de mudança, o da construção de um novo Maranhão. O que nos une é uma proposta anti-bolsonaro. Se a gente tem alguma afinidade hoje, política, é essa. 

Quando fui visitar o ex-presidente José Sarney, fui com o presidente da fundação da memória republicana, que estava completando dez anos. Fui levar um convite formal para participar do evento, já que ele é patrono. Na ocasião, a gente conversou sobre política, e a primeira coisa que ele disse foi essa: ‘olha, esse presidente que tá aí não dá certo’. Ressaltou e reconheceu os avanços do governo Flávio Dino e falou isso: ‘o que nos une, agora, é tirar o Bolsonaro da presidência’. 

Então, aqui no Maranhão, eu ressalto que vai ser uma eleição diferenciada. Vai ser a primeira vez na história que a eleição não será regionalizada, que não será contra forças  políticas locais. Agora, o Sarney já foi aposentado, já foi aposentado da política, tudo indica que a ex-governadora Roseana Sarney não será mais candidata ao governo. Qual vai ser o fenômeno no Maranhão: vai ser os candidatos que apoiam o Bolsonaro e os progressistas, que apoiam Lula.

Já há pré-candidatos alinhados ao projeto bolsonarista, ultra-conservador, pelo desmonte do Estado, do Enem, do Bolsa Família, um projeto genocida. E, do outro lado, relacionado a politicas sociais, a um governo que tem seus erros, como todos os outros, mas que pelo menos a gente dialoga, conversa, defende a democracia. Essa outra turma, do atraso, ficou presa na ditadura militar. A gente tem que tirá-los imediatamente do poder e não pode deixar assumir no Maranhão.

Essa turma do atraso, tu falas das declaradamente bolsonaristas, certo? Porque na base do governo Flávio Dino tem o André Fufuca (PP), que apoiou o candidato do Dino, Rubens Jr, nas eleições passadas (PCdoB), mas que é totalmente alinhado ao governo Bolsonaro. Como acontecerá essa divisão?

A nossa proposta de candidatura é que seja anti-bolsonarista. Que tenha núcleo com partidos progressistas e de esquerda. Até agora, dialoguei com o PSOL, a Rede, o PCdoB e PSB. A partir desse núcleo, estamos abertos a conversar com outros partidos. Mas nós temos, hoje, um limite, que não é ideológico, e sim programático. Não tem como fazer acordo com partidos que estão na base de um opositor do futuro presidente Lula. Que criminalizaram nosso partido, que deram golpe na presidenta [Dilma].

Então, o PSDB, por exemplo, está fora desse limite?

Nós vamos dialogar também, porque o PSDB já declarou oposição ao governo Bolsonaro. Hoje, é um partido que cabe o diálogo. O PDT também, assim como os mais de centro. Agora os que são bolsonaristas, a gente não tem nenhum tipo de amplitude para dialogar.

A oposição ao atual governo vê na sua filiação ao Partido dos Trabalhadores um movimento situacional. Eles não percebem identidade entre você e a sigla. É correta essa percepção? Se não, por que só agora o senhor migrou para o PT? 

A primeira vez que me filiei a um partido foi em 2018, ao DEM, e explico agora: foi um momento em que recebi o convite para uma suposta refundação do extinto PFL. O perfil que me foi apresentado era jovem, de independência ao governo – na época. Quando consultei o governador Flávio Dino, ele julgou que era importante, porque o DEM estava entrando na base do governo para sua reeleição. 

Circunstancialmente, eu julguei importante minha filiação. Como tudo na vida, a gente vai percebendo as coisas. Os movimentos que o partido fez são diametralmente opostos ao que eu faço na minha vida e na gestão pública. Eu era um estranho no ninho.

No segundo turno das eleições de São Luís, a gente teve essa percepção. O DEM caminhou por um lado e eu, por outro. Quando eu realmente decidi entrar na vida partidária para disputar a eleição, imediatamente pedi a minha desfiliação do DEM e me filiei ao partido com que eu tinha certeza da minha identidade ideológica. Com o PT, não vem só da minha militância com o movimento estudantil, mas também com minhas ações concretas, já que eu comando, no Governo do Estado, o Escola Digna. Fizemos abertura de creche junto com o MST, IEMA bilíngue, escolas em tempo integral… Minha interlocução direta com movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, trabalhadores do campo. Sempre tive muita identidade com o PT. 

A gente não pode ficar preso ao erro. Naquele momento, achei que fosse correto, e, reavaliando, vi que não era. Não foi o que combinaram comigo. Me chamaram para refundar o partido, e eu disse ‘tudo bem’. Veio para a base do governador. E, depois, tudo desandou e eu pedi para sair.

Então, foi um erro se filiar ao DEM?

Foi, claro que foi. Mas achei que fosse o melhor a fazer, naquele instante.

Aproveitando a deixa dos conflitos do campo, tens algum pronunciamento sobre o que aconteceu com os Akroá-Gamella em Viana?

Eu tenho acompanhado muito, Giovana. Se você me perguntar qual vai ser minha marca enquanto pré-candidato ao governo, seria, ao lado da Escola Digna, algo como o Campo Digno – ainda tenho que pensar em um nome. Porque temo que o Maranhão só vai conseguir superar índices que Flávio não conseguiu superar ainda, por conta do tempo, investindo no campo.

Quando falo disso, falo em agricultura familiar, sobre educação no campo, sobre conter legalmente e com coragem o avanço do agronegócio, preservar comunidades tradicionais. Uma série de ações sistemáticas no campo, porque assim a gente gera riqueza e renda e isso vai beneficiar o estado, vai beneficiar o presidente Lula, que vai fazer política macro para todo o país.

Passei a estudar isso como meta principal do plano de governo. Reforma agrária, focar na resolução dos conflitos fundiários aqui no estado, que são muito graves. O Chico [Gonçalves, secretário de Direitos Humanos] está lá, acompanhando, de perto. Não posso classificar de outra forma senão barbaridade. Não sou favorável ao uso em primeiro plano de polícia para resolver esses conflitos com comunidades tradicionais. O caso é de diálogo. Quero, cada vez mais, me envolver nessas questões.

Então, em um eventual governo teu, isso seria prioritário?

Sim. E mais: acho que órgãos estratégicos, como Secretaria do Meio Ambiente, da Agricultura Familiar, têm que ser construídos com os movimentos sociais. 

E tu achas que a atual não tem participação?

Tem participação, mas eu quero participação direta. O meu compromisso é que eu quero que a indicação da secretaria passe pelos movimentos sociais. Não é só participar no diálogo construtivo, que tem acontecido. Quero dar o segundo passo. 

Especula-se que Lula não vê com bons olhos uma decisão do governador por uma candidatura do PSDB no Maranhão. Caso Flávio Dino se decidir pela pré-candidatura de Carlos Brandão ao governo do estado, mesmo em desacordo com Lula, o senhor se posicionaria de qual lado? Flávio Dino ou teu partido?

Acho que a candidatura própria do PT é importante para garantir o palanque do Lula. Eu não quero contrariar a liderança do Flávio de forma alguma. Isso é tudo dialogado, sempre. Então, minha primeira tese é que Flávio não escolha agora. Acho que a gente pode crescer e eu ainda queria ser o escolhido pelo Flávio.

Agora, com relação ao PT, a discussão interna que eu faço é que, seja o palanque do PSDB, do PT ou do Solidariedade, em qualquer hipótese, você imagina o Lula ter que vir aqui dividir o palanque. Pra isso acontecer, teria que ser muito bem dialogado. Uma hipótese do candidato a governador, se não fosse eu, não subir no palanque do seu candidato a presidente quando ele viesse aqui. Teria que ser um acordo como esse. O presidente Lula não merece ter o palanque dividido com outro candidato. 

Essa questão ideológica entre PT e PSDB, na discussão sobre o Alckmin ir ao PSB ou não, o Lula disse que ‘ele não tem problema com o Alckmin que não seja reconciliável’. O PT não tem nenhum problema com nenhum outro partido que não seja irreconciliável, exceto com os que são da base bolsonarista e que criminalizaram o PT.

Então, nessa situação hipotética, de escolha de Brandão, vocês penderiam pro lado do Lula?

Sempre. A liderança é do Lula. E, no Maranhão, é do Flávio.

Quem é Felipe Camarão para o interior do estado? A gente sabe que o interior do Maranhão é polarizado entre Weverton, Brandão e Josimar de Maranhãozinho. Tu achas que é possível vencer sem o apoio dos políticos do interior? 

É um grande desafio. O Flávio foi candidato em 2010 com três prefeitos apoiando a candidatura dele. Em 2014, foram 15, mas ainda sim ele se elegeu. Aqui, no MA, a gente tem um paradoxo: o Lula tem mais de 70% das intenções de voto para presidente, e é candidato do PT. Mas as candidaturas do PT, historicamente, nunca alcançaram essas intenções de voto. Nunca esteve no protagonismo da política estadual. 

Esse é o grande desafio do PT para 2022: traduzir esses votos que são nacionalizados para os candidatos e candidatas a deputado federal e estadual e para o projeto de candidatura própria.

Se a gente conseguir vencer esse desafio, se a gente conseguir divulgar essa candidatura como sendo a do PT, a do presidente Lula, do secretário Felipe Camarão que implantou o Escola Digna, acho que a gente tem muita chance de vencer mesmo sem o apoio da chamada política tradicional.

Mas apostar nesse vínculo com o Lula não é repetir as eleições do ano passado, com Rubens Jr?

Nosso desafio não é apenas vincular o lulismo, que talvez tenha sido o erro do companheiro Rubens Jr. Mas é algo que pode ser erro de muitas pessoas, vincular com A ou B, como os bolsonaristas que podem tentar vincular só com Bolsonaro.

O que percebo hoje da população é que os eleitores não querem saber a qual partido você é filiado, e sim querem saber o que você já fez, se você é honesto e o que você é capaz de fazer no futuro. É o que tenho demonstrado: meu histórico, minha ficha limpa e agora estou propostas para o Maranhão.

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