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“Ele teve uma morte escoltada e assistida”, diz tia de jovem que cometeu suicídio em Porto Franco

Luís Carlos, de 19 anos, se despiu e percorreu 2km dos pontos mais movimentados da cidade, até atentar contra a própria vida. Polícia e civis não interviram

Por: Andressa Algave e Giovana Kury

“Aquelas pessoas que deveriam nos dar apoio e segurança foram omissas”, desabafou Cirlei Almeida, tia do jovem Luís Carlos Almeida, de 19 anos, que, durante uma crise na noite da última sexta-feira (4), percorreu cerca de 2km totalmente desnudo – passando pelos pontos mais movimentados da cidade de Porto Franco, no Maranhão, – e se lançou no Rio Tocantins. Durante o percurso, várias pessoas filmaram e a vítima chegou a ser escoltada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), mas ninguém interveio.

Guiado pela crise fruto de transtornos psicológicos e depressão, Luís se despiu e saiu de casa às 21h30, onde morava com sua mãe e seu irmão. O percurso se deu em direção à Beira Rio, ponto turístico do município. Filmagens compartilhadas em redes sociais o mostram caminhando enquanto era alvo de piadas. O corpo do rapaz foi procurado e encontrado apenas no dia seguinte ao acontecido, às 15h deste sábado (5), após ação do Corpo de Bombeiros. Destroçado pelas pedras, não foi possível sequer fazer o velório.

“Um jovem que sai pela cidade pelado, é aparente que ele não tá bem. E aquelas pessoas que deveriam nos dar apoio e segurança foram omissas. Ele teve uma morte escoltada e assistida, infelizmente. Várias pessoas atrás filmando, sorrindo, chamando de louco, e ninguém socorreu”, afirma a tia, com lágrimas nos olhos, em vídeo gravado na noite deste domingo (6). “Não vai trazer o nosso Luís de volta, mas a gente não quer que isso aconteça com outras famílias. Tem culpado? Tem culpado, sim. Eles poderiam ter feito alguma coisa, e a omissão de socorro que nos revolta”.

Em nota divulgada, a PRF contou que a conduta policial foi escoltar Luís para resguardar sua integridade física, e que o rapaz negou a ajuda da equipe. A nota também menciona que após Luís adentrar uma propriedade privada houve tentativa de contato com a Polícia Militar, a quem cabe a jurisdição da região, mas a viatura da PM estaria em outra missão e por isso não puderam se deslocar para o resgate do rapaz. No entanto, pessoas próximas da vítima desmentem a informação: segundo elas, câmeras de segurança mostram que, quando Luís chegou na balsa, ponto responsável pela empresa de transporte Pipes, a Polícia Rodoviária já não estava mais o escoltando.

A Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), em nota oficial, conta que acompanha o caso por meio da Coordenação Estadual da Política LGBT, da Ouvidoria de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Juventude e da Superintendência de Combate à Violência Institucional (SCVI). A nota também informa que atualmente a instituição trabalha em parceria com órgãos municipais e com a sociedade civil organizada para promover o empoderamento da comunidade LGBTI+ na garantia de direitos junto as instâncias governamentais e não governamentais.

Mês de orgulho LGBTQIA+

“O Luís tinha 19 anos. Homossexual, pobre, e negro”, conta um amigo próximo da vítima. Segundo ele, Luís tinha problemas com a família, mas, nos últimos tempos, ele e a mãe estavam mais próximos. Ela, inclusive, chegou a brigar na igreja pela aceitação do filho. “As coisas estavam mudando”, diz.

A tragédia data o começo do mês de junho, em que se comemora, internacionalmente, o mês de Orgulho LGBTQIA+ – escolhido por conta das manifestações de Stonewall, que tomaram as ruas de Nova Iorque em 1969, quando a polícia invadiu o bar gay Stonewall Inn.

Passados mais de 50 anos, apesar dos direitos já adquiridos por esta população, a problemática segue acontecendo de diferentes formas no Brasil e no mundo. O episódio de Luís é exemplo disso. Segundo o amigo da vítima, não se trata apenas daquela noite: “compreende a negligência que o Luís sofreu a vida toda. Não só das autoridades, mas também de uma sociedade doente”.

Por ainda estarem muito abalados, a mãe e o irmão da vítima ainda não se pronunciaram à imprensa.

Veja, na íntegra, o depoimento da tia de Luís Carlos:

“Estou aqui para falar da minha revolta em relação à omissão de socorro. Um jovem que sai pela cidade pelado, é aparente que ele não tá bem. E aquelas pessoas que deveriam nos dar apoio e segurança foram omissas. Ele teve uma morte escoltada e assistida, infelizmente. Várias pessoas atrás filmando, sorrindo, chamando de louco, e ninguém socorreu. Quando fomos ver as imagens de segurança de uma empresa, muitas motos atrás, gritando, sorrindo, e acelerando pra ver até onde ele entrava na água. E ninguém, ninguém socorreu. Então, assim, eu peço ajuda, eu peço socorro. A família não quer que isso passe impune. Não vai trazer o nosso Luís de volta, mas a gente não quer que isso aconteça com outras famílias. Tem culpado? Tem culpado, sim. Eles poderiam ter feito alguma coisa, e a omissão de socorro que nos revolta. Ele estava em casa, em determinado momento se despiu e saiu pela cidade. Temos vários vídeos veiculando nas redes sociais que ele tava sendo escoltado em determinado momento pela polícia e ele atravessou a cidade. O bairro que ele mora é bem distante da beira rio. Ele cortou a cidade inteira, atravessou a cidade pelado. E ninguém fez nada. Chegando na Beira Rio, ele entrou, mergulhou e não apareceu mais.

Nos sentimos massacrados, humilhados e queremos justiça. Nós estamos tristes pela perda e chateados pela omissão de socorro. Revoltados mesmo.”

“Algo sempre vai estar contra nós, mas enquanto estamos vivos e tentando, podemos conseguir”

Luís Carlos Almeida em publicação no Facebook, no último dia 29 de maio.

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