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Acusada de apologia ao racismo, palestra de professora da UEMA foi cancelada

Zumbi dos Palmares seria o foco da palestra. Imagem: Reprodução/Toda Matéria.

Autora da palestra já teve texto com o mesmo assunto apagado do site da Fundação Zumbi dos Palmares por decisão judicial.

Ontem, 26 de maio, iria ser realizada a palestra “A verdade sobre Zumbi dos Palmares” na Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche, em São Luís, pela professora universitária Mayalu Félix, mas o evento foi cancelado devido às pressões de entidade.

Cartaz da palestra
Cartaz de divulgação do evento. Imagem: Reprodução/Instagram.

Assim que o evento foi divulgado, houve manifestações contra a realização do evento, inclusive com nota de repúdio publicada pela Rede de Educadores em Museus do Maranhão, formada por profissionais de museus e casas de cultura do estado.

Veja a nota na integra:

NOTA PÚBLICA

São Luís, 26 de maio de 2021.

            A Rede de Educadores em Museus do Maranhão formada por profissionais de museus e casas de cultura públicas e privadas do Estado do Maranhão em 2015 repudia o evento denominado “Palestra A Verdade sobre Zumbi dos Palmares da Dra. Mayalu Felix na Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche” por se tratar de apologia ao racismo e atentar contra valores democráticos e desrespeitosos ao movimento social negro.

            O texto a ser apresentado pela autora foi retirado da página oficial da Fundação Palmares por determinação judicial há um ano atrás. A juíza Maria Cândida Carvalho Monteiro de Almeida, da 9ª Vara Federal Cível da SJDF, determinou que os artigos “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de Verdade?”, de Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, e “A Narrativa Mística de Zumbi dos Palmares”, de Mayalu Felix, deveriam ser retirados, sob pena de multa diária no valor de R$ 1 mil.

“Concluo, com base nessas considerações, que a permanência dos artigos questionados no sítio institucional da Fundação Cultural Palmares ameaça o patrimônio histórico-cultural brasileiro e viola o direito à identidade, ação e memória da comunidade negra e a sua garantia a condições adequadas para a preservação, expressão e desenvolvimento de sua identidade”, diz a decisão.

O texto e a autora são adeptos de um revisionismo histórico negacionista do racismo e da luta por políticas compensatórias. A Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche, localizada no Beco Catarina Mina em São Luís Maranhão, apesar de se tratar de uma instituição privada, é limitada por valores constitucionais e não deveria promover divulgação de ideias racistas e atentadoras à história de luta do movimento negro maranhense e brasileiro.

INTEGRANTES DA REDE DE EDUCADORES EM MUSEUS DO MARANHÃO

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/justica-determina-que-fundacao-palmares-retire-de-site-artigos-que-atacam-figura-de-zumbi-24453960

O evento foi cancelado e a palestrante se manifestou em uma rede social.

Tweet da autora "Em virtude das turbulências causadas por grupos e de pessoas, inclusive um policial militar do estado do Maranhão, que incitam a censura, a violência, o silêncio do contrditório, a ausência de debate e  o pensamento único, a Palestra que eu iria proferir hoje na Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche foi cancelada. Esta é a esquerda. Podem aplaudir, os stalinistas merecem.
Declaração após o cancelamento. Imagem: Reprodução/Facebook.

Mayalu Moreira Félix é professora na Universidade Estadual do Maranhão, Departamento de Letras – Cecen, desde 2004. A nossa reportagem não conseguiu falar com a professora.

Entramos em contato com a UEMA que respondeu:

A Universidade Estadual do Maranhão informa que não tomou conhecimento desse fato específico, mas que em termos gerais não se responsabiliza pelas opiniões e posições de docentes isoladamente.

Também conversamos com a Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche para saber se queriam falar sobre o caso, mas o representante afirmou que acredita não ser necessária manifestação a respeito.

Fundação Zumbi dos Palmares

Desde que assumiu a direção da Fundação Zumbi dos Palmares, Sérgio Camargo vem causando polêmica entre o movimento negro.

Já na função de presidente da fundação, Camargo se referiu a Zumbi dos Palmares como “herói da esquerda racialista; não do povo brasileiro”, motivo pelo qual já sugeriu até a mudança do nome da fundação que preside. Também já criticou personalidades negras como a vereadora Marielle Franco.

Sérgio Camargo havia divulgado a palestra da professora Mayalu Félix em uma rede social.

Divulgação pelo presidente da Fundação Palmares. Imagem: Reprodução/Instagram.

Os textos a que a Rede de Educadores se referiram na nota pública foram “A narrativa mística de Zumbi dos Palmares”, de Mayalu Felix, e “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de verdade?”, de Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, publicados no site da Fundação no dia 13 de maio de 2020.

Os textos foram excluídos por determinação judicial que previa multa de R$ 1 mil reais  por dia em que os textos estivessem publicados. A justificativa para a exclusão foram os ataques a Zumbi dos Palmares.

Na mesma época, a procuradora federal dos direitos do cidadão Deborah Duprat apresentou representação por improbidade administrativa alegando que “negar ao povo negro a sua história e seus heróis, como é o caso de Zumbi, é atentar contra a instituição que Sérgio Camargo preside”, afirmou.

Os textos foram excluidos, mas, este ano, em 13 de maio de 2021, um texto semelhante voltou a ser publicado e ainda está disponível no site da Fundação.

No artigo “O treze de maio, um dia redentor”, de autoria de Luiz Gustavo S, Chrispino, não são mais dirigidas críticas diretas a Zumbi do Palmares, mas sim exalta a figura da Princesa Isabel como verdadeira redentora e heroína do povo negro.

Veja um fragmento do texto:

De minha parte, como Historiador, não levando em conta meu apresso pelo regime Monárquico Parlamentar, e brasileiro, dói ver a forma imprópria que taxam nossa princesa imperial de ser mera “assinadora” da Lei Áurea, que neste 13 de maio faz, 133 anos da assinatura da lei que pois fim a infame escravidão no Brasil, e como sempre, levanto a bandeira de “Redentora” de nossa Princesa Isabel, pois, ela redimiu, sim, o Brasil de 471 anos de escravidão

Leia o texto completo aqui.

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